livre-arbítrio

19 Fev
19 Fevereiro, 2008

Os baptizados são realizados em pessoas, em crianças, que não têm a possibilidade de dizer não ou sim. Não têm qualquer consciência das implicações do acto que lhes é imposto pela sua família.

A religião cristã defende que o homem é responsável pelas suas acções. Deus deu-lhe uma arma poderosa o livre-arbítrio. Ele não impõe a sua vontade nas nossas escolhas, no nosso caminho, na nossa estrada da vida. Como é que esta imposição baptismal é conciliada com o livre-arbítrio?

Este livre-arbítrio existe igualmente na estrada do amor.

Why is commitment such a big problem for a man? I think that for some reason when a man is driving down that freeway of love, the woman he’s with is like an exit, but he doesn’t want to get off there. He wants to keep driving. And the woman is like, “Look, gas, food, lodging, that’s our exit, that’s everything we need to be happy… Get off here, now.” But the man is focusing on sign underneath that says, “Next exit 27 miles,” and he thinks, “I can make it.” Sometimes he can, sometimes he can’t. Sometimes, the car ends up on the side of the road, hood up and smoke pouring out of the engine. He’s sitting on the curb all alone, “I guess I didn’t realize how many miles I was racking up.”

Jerry Seinfield

Mas, e sem descurar a importância do amor, quero é falar do primeiro livre-arbítrio, o concedido por Deus. Este livre-arbítrio é uma “coisa” muito boa, especialmente para Ele. Ele nunca faz asneiras. Somos sempre nós que as cometemos. Quer seja por omissão, quer seja por acção ele irá sempre dizer:
– “A estrada que seguias levou-te a uma encruzilhada. Havia o caminho da direita e o caminho da esquerda. A escolha foi tua, meu filho.”
– Sim, a escolha foi minha. E essa escolha que ditou todo o meu futuro ficava como todas as decisões “na encruzilhada do bom e do mau caminho”[1] e como sempre não basta “choose wisely”[2]. Faltou, falta, sempre, um pormenor, que como todos os pormenores é um pormenor de merda.
As guerras, os desastres, a fome, a miséria humana não são culpa de Deus. Dele nunca. São culpa nossa. Como filosofia é uma coisa espectacular. Como isenção de culpa é uma coisa ainda melhor. Sem esquecer que Ele até nos dá linhas orientadoras, um código de conduta, uma constituição moral, os 10 mandamentos.

Há filhos que se podem orgulhar de pais, mais ou menos, semelhantes a esta presença/ausência divina.

Há filhos que têm pais sentinela, não os vemos, não os cheiramos, mas eles estão lá para nos premiarem com uma bofetada por alguma acção “potencialmente” mal feita. Nunca sabemos a razão da marca gravada a quente na cara. O pai sentinela não informa. Faz-nos pensar. Faz-nos crescer. Magoa-nos.

Há, também, os pais faróis, firmes, hirtos, iluminam o nosso caminho – “i’m the light“, mas mudam de direcção com uma regularidade constante. São defensores do cinzento, do “nim” e estão lá para nos premiarem com uma iluminada bofetada por alguma acção que já pode ter sido boa, mas que já não o é. Nunca sabemos a verdadeira razão do ardor na cara. O pai farol não informa. Faz-nos pensar na volatilidade das nossas acções. Faz-nos crescer. Faz-nos políticos.

E, já agora, porque é que me estou a queixar? Sou ateu. Bem, sou mais agnóstico. Porque um agnóstico é um ateu politicamente correcto. E o meu pai é o meu Pai.


[1] Vinicius de Moraes, O terceiro filho
Em busca dos irmãos que tinham ido
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.
Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré…”

[2] Palavras ditas pelo Cavaleiro do Graal no filme Indiana Jones and the Last Crusade.

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