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o passado é um país estrangeiro de ali smith

23 Out
23 Outubro, 2017

Era uma vez um homem que, certa noite, durante um jantar social, entre o prato principal e o doce, subiu as escadas e fechou-se num dos quartos da casa. À medida que as horas se transformam em dias, e os dias, em meses, as consequências deste estranho ato repercutem-se para o exterior, afectando os donos da casa, os outros convidados, a vizinhança e todo o país.

Lamentavelmente não me deu pica. Deve ser aquela altura do mês em que se complica qualquer leitura. Coloquei o livro de lado e iniciei novos voos, noutras páginas.

quando?

31 Out
31 Outubro, 2016

Quando é possível um casal de namorados comungar de um saudável e bufalino traque? Ou seja e visto isto, apenas do lado masculino, quando pode o macho dar um sonoro traque (vulgo pólvora seca) ou emitir um traque silencioso (mais estilo ataque terrorista)? E para que se saiba do que estou a falar o traque é segundo o dicionário online (Priberam) a “Ventosidade que sai do intestino pelo ânus” ou para os mais lentos aquilo que vulgarmente se apelida de peido. Ou será que só casamento é que justifica a comunhão do peido? ou nem o casamento? ou será que é apenas quando o macho namorado/marido partilhando já de uma relação carnal – tipo sexo puro, mas duro – pode exibir os seus dotes e peidar-se sem sobressaltos assinalando até com esse acto que terminou o seu serviço de amante e que deseja dormir até ultrapassar o doce período refractário? ou nem com o sexo o traque está autorizado na relação? Terá o amante sempre de levantar-se da cama, aconchegante, do sofá e verter o(s) peido(s) na solidão do quarto de banho? E se, academicamente falando, como hipótese remota, o macho estiver a conduzir ou a ser conduzido a 140km à hora e urgir a necessidade de arremessar algum vento pelo ânus, ainda não o sabe se sonoramente ou silenciosamente, mas claro que com apenas dois ocupantes não há a quem mais atribuir a culpa, pode-o fazer? ou tem de aguentar, apertando as nádegas em sofrimento, correndo o risco de causar um acidente, se estiver a conduzir, pois estará distraído com uma premente dor abdominal, até à próxima estação de serviço? É aceitável nesta situação de condutor a emissão de um peido ou vários? Porque se estiver no lugar do morto, mais sofrimento não corre do que estar a ser conduzido por uma mulher – pode, pois, unir sem problemas as musculadas, como devem ser, nádegas e esperar pela estação de serviço que se aproxima subjectivamente de forma lenta, mas que se aproxima mesmo assim. E se, remotamente, por qualquer motivo incompreensivelmente válido, os amantes estiverem numa de coitus interruptus e nesse hercúleo esforço o macho peidar-se, é este traque aceitável? Deve o macho ser penalizado pela parceira por uma ventosidade não premeditada? Não será o traque o indicador de que o casal está mais liberto de inibições e que alcançou outro patamar de intimidade? Intimidade que tem muitos degraus e nuances. Não será motivo de orgulho para a mulher quando o macho se levanta pela manhã, coça os tomates e em cada passo cambaleante até ao quarto de banho exprimir a sua felicidade, por ser bafejado por mais um dia de trabalho, de vida, de alegria, de sentir na sua alma o que é ser português, através de uma rajada metódica, equilibrada, cadenciada, sonora de peidos – uma sinfonia zen à rouxinol português?

É um assunto complexo.

Há quem defenda que o traque enquanto função corporal é um acto normal e deve ser até acarinhado pela possibilidade de suavizar ambientes pesados com as risadas, com os trejeitos cómicos de quem fica desnorteado pelo tradicional cheiro português a nabiças, mas altamente concentrado.

Para os SIM o traque deveria ser usado nos meios sociais como símbolo de altivo status e servir para competições: o peido mais sonoro, o mais longo, o mais quimicamente mortal, etc… Contudo há pessoas que entendem superiormente, digo eu, na minha natural modéstia, que o peido é um acto biológico sim, mas individual e que nunca deve ser partilhado.

Para os NÃO o peido tem de ser dado num completo solipsismo social. É o ostracismo do traque fechado tal queijo numa redoma de vidro. Existe, contudo, como muito bem apontou um amigo meu, quando lhe colei algumas frases desta crónica?, uma situação rara, como um caracol veloz, em que o peido pode fazer parte de uma relação amorosa duradoura. No acontecimento, raro pois, da mulher abrir o ânus ao peido é o mesmo que dar a chave de ouro da cidade dos peidos ao macho e a partir daqui é uma Sodoma e Gomorra. É o mesmo que biblicamente dizer “venham a mim os peidos“!

É claro que numa relação fugaz o peido até serve em 49,3% dos casos como desculpa barata ao rompimento, sem necessidade de se recorrer a um jantar para explicar à miúda o inexplicável; que já estamos noutra onda e que ela não tem lugar na prancha. Nestes casos um traque ou até dois, seguido de um pedido de desculpa enquanto colocamos o indicador na boca, mordiscamos a unha e expelimos outro peido, agora, este indesculpável é remédio santo para quebrar qualquer namoro. Na pior das hipóteses a miúda relevando-se uma patetoide até acha piada à nossa desenvoltura corporal e decide contribuir com peidos próprios à festa. Perante isto basta meter o dedo no nariz tirar um bom macaco, provar a sua consistência suavemente com a língua e oferecer como tributo à nossa ex-namorada. Iremos ser chamados de “broncos estúpidos”, o que não deixa de ser verdade, apesar de ela não precisar de usar dois adjectivos com o mesmo significado, mas é compreensível tendo em conta o choque olfactivo que acabou de sofrer. Poupamos 50 euros no jantar e estamos prontos para outras aventuras.

Se apesar disto tudo a miúda não arredou pé estamos perante uma deusa e o melhor é levar a relação a outro degrau.

Depois de 888 palavras a dúvida persiste na minha mente. Deve o peido ser valorizado ou punido socialmente?

Outras divagações sobre o tema poderão ser tratadas noutra altura.

dois sims

25 Mar
25 Março, 2010

Hoje, uma vez mais, fui expulso da cama pela minha mulher. Senti-me um ió-ió. Umas alturas quer o meu calor e beneficiar das minhas capacidades tântricas, outras vezes empurra-me da cama abruptamente apenas porque o relógio diz-lhe que as horas para ir laborar se encurtam. É desculpa. É? Desde quando é que ela é o meu relógio de cuco? Hummmm… Desde que ela consegue acordar com o despertador e eu não… talvez seja isso?

Mas não é isto que devo destacar na manhã do dia de hoje. Ocorreram duas coisas. Uma menos grave e outra mais grave.

A coisa menos grave foi o facto de chegado à cozinha e após a toma dos dois comprimidos habituais olhar para o relógio lá pendurado no alto e reparar que o ponteiro dos minutos estava no número nove e sair disparado de casa com o saco de lixo na mão. Estranho não ver as habituais pessoas na rua e olhei para o relógio de pulso e são 8h.25m – pois, já me lembro, são precisas pilhas para o relógio da cozinha. Aproveitei o tempo de sobra? e fui fazer “horas” para o parque, enfim ver os patos.

A coisa mais grave, veio na ocorrência do jantar de ontem com dois autênticos pândigos, p. e h.; quando lhes confidenciei que sempre que me vinha à mente um breve farrapo, uma ideia perante um acontecimento observado ou uma frase ouvida, pegava no pequeno caderno de apontamentos e registava numa folha branca ali mesmo na rua, no café, em qualquer lugar, onde a ideia tinha despertado, algumas palavras para futuro desenvolvimento no meu blog, persuadiram-me – e agora que escrevo isto devidamente distanciado dos copos, dos tremoços, da chouriça, do hambúrguer, talvez tenha sito da Mc Chouffe ou da Duvel – a usar o gravador do meu telemóvel: “Paulo nem parece teu não usares as novas tecnologias. E sempre podes disfarçar que está a falar com alguém.”

Tenho um Nokia N80 e para facilitar o uso do gravador decidi substituir nas opções do “Modo de Espera” a tecla de selecção directa, actualmente, “Galeria” por “Gravador de Voz” – pensado e executado enquanto subia a Avenida Alcaides de Faria.
No parque da cidade já estava de telemóvel encostado ao ouvido a falar para ninguém. Encontro-me com um agradável conhecido, páro de falar, emito um cumprimento rápido, e aponto para o telemóvel a desculpar-me porque não posso ficar por ali a trocar algumas palavras, quando o telemóvel toca….
… olho para o telemóvel, olho para o agradável conhecido surpreendido e comento, após atender a chamada, o quanto detesto as novas tecnologias, que não devia ter comprado um telemóvel que permite a utilização simultânea de dois cartões SIM porque corta a chamada do outro número sem aviso, que ainda por cima tenho agora de ligar para a outra pessoa e gastar saldo do cartão. Durante 5 minutos ficamos ali, junto aos patos, a comentar e a acenar em concordância que a tecnologia é coisa do demo e que os telemóveis nos tiraram a liberdade e o sossego.

uma caldeirada?

16 Mar
16 Março, 2010

O aspecto pode não ser o mais atraente.
O resultado final em termos de sabor até que foi razoável.

aventura culinária

08 Jan
8 Janeiro, 2010

Convidar alguém para jantar e ser obrigado a fazê-lo como desafio às minhas capacidades culinárias não estava dentro do meu arrojado plano; descascar batatas durante 45 minutos, muito menos. Penso, contudo, que o resultado final foi positivo.
Claro que aguardei os 30 minutos de praxe e ninguém foi vitima de intoxicação alimentar.

A deslocação já menos massiva de Sir Paxo, o que abala infelizmente a perspectiva volumétrica da minha filha sobre o que é na verdade alguém ser… forte/gordo, permitiu-me usufruir de uma boa companhia; sem negar as suas qualidades de bom falador e bom ouvinte, estou, muito naturalmente a referir-me à boa companhia de uma cerveja com que ele presenteou a mesa.

A recordar o 3D penso no primeiro filme que vi no cinema, Beowulf, e no último, Avatar, e a diferença é BRUTAL. Eu até ia novamente…

Outra satisfação que tive no jantar, que serviu também este propósito, foi dar mais um livro a quem não gosta de ler.

que diferença?

15 Mai
15 Maio, 2008

Quase todos os dias sigo uma corrente de tarefas rotineiras até sair de casa para trabalhar.
esfrego os olhos. coço os tomates. cheiro as mãos. afasto os lençóis. lassamente saio da cama. chego à sanita. levanto a tampa. e urino tentando acertar sempre na água para admirar ruidosamente o esvaziar da bexiga. lavo a cara. as mãos. os dentes. a língua. e o resto. aproveito para reter água na boca. limpo-me. perco 10 segundos a escolher a roupa. visto-me. procuro pelos óculos durante 2 minutos. passeio até à cozinha. ataco o resto de uma pizza solitária. bebo um copo de leite. saio de casa.

E iniciei esta entrada dizendo quase, porque hoje foi diferente. A rotina foi quebrada. Nada como um rewind para analisar os elos da corrente.
acordo. esfrego os olhos. coço os tomates. cheiro as mãos. afasto os lençóis. lassamente saio da cama. chego à sanita. levanto a tampa. e urino tentando acertar sempre na água para admirar ruidosamente o esvaziar da bexiga. lavo a cara. as mãos. os dentes. a língua. e o resto. aproveito para reter água na boca. limpo-me. perco 10 segundos a escolher a roupa. visto-me. procuro pelos óculos durante 2 minutos. passeio até à cozinha. mimo-me com 4 bolachas integrais. bebo um copo de leite. saio de casa.

A diferença para os mais incautos poderá revelar-se com a escolha de 4 bolachas integrais. Concordo que ao primeiro relance de alguém pouco habituado a uma saudável verbosidade seja essa a conclusão. Mas não. Lamento profundamente. Lamento, mas não profundamente. Sejamos sinceros, perante esta escolha se eu revelar uma qualquer expressão de dor é por cinismo.
A diferença é que foi um dos dias em que acordei antes das 11h00. Quase sempre só me desperto a 50% depois da ingestão de meia-de-leite, a 70% ao almoço e a 90% ao jantar. Naqueles dias em que acordo a 100% o dia começa muito, mas muito mal.

doeu?

18 Jul
18 Julho, 2007

Na segunda-feira o meu filhote convidou um amigo igualmente fã de wrestling para jantar. Tendo em conta a regra de ouro em que ninguém pode jogar xbox logo após o jantar, fomos, mesmo assim, condescendes e deixamos a televisão ligada na Sic Radical. O z. explicou-me que apesar de a maioria dos combates serem a fingir há alguns que não o são.
– Sabe pai do Luís… há combates em que eles tomam medicamentos para não terem dor e esses combates são a sério.
– Se se atirarem de um prédio abaixo nem morrem… – continuava z. com a sua explicação.
Depois parou por uns momentos a pensar na última frase e emendou-se:
– Bem… morrer morrem, mas não sentem dor…

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